Informação útil
A Gravidez e Transição para a Parentalidade enquanto processos de desenvolvimento
Numa perspectiva desenvolvimental, a Gravidez e a Maternidade constituem importantes momentos da vida dos indivíduos e das famílias caracterizadas pela presença de determinadas tarefas desenvolvimentais específicas que devem ser realizadas. Por “tarefas desenvolvimentais” entendemos uma tarefa que surge num determinado momento de vida do indivíduo, cuja superação com sucesso conduz à adaptação e sucesso noutras posteriores; pelo contrário, o fracasso na sua superação pode conduzir a perturbação, desaprovação social e dificuldades posteriores (Havighurst, 1952, cit. Gazda et al., 2001).
Colman e Colman (Canavarro, 2001; Colman & Colman, 1994) salientam a existência de seis tarefas psicológicas que devem ser realizadas no ano do nascimento do bebé.
1. Aceitar a gravidez: A primeira tarefa é aceitar a realidade da gravidez. Apesar de ser uma tarefa intrínseca, é possível que haja alguma ambivalência em relação a esta gravidez, entre o desejo e o medo da gravidez. A aceitação da gravidez por parte do pai é geralmente mais tardia, pois não têm os sintomas físicos para os preparar.
2. Aceitar a realidade do feto: Ao longo da gravidez, de forma progressiva, a representação do bebé vai-se tornando mais autónoma e realista, nomeadamente pelas sensações e visualização da existência real do bebé, através dos movimentos fetais e das ecografias. Esta fase permite distinguir a gravidez da existência de um feto, separado, autónomo, distinto da mãe.
3. Reavaliar e reestruturar a relação com os pais: Esta tarefa exige o confronto com a família de origem do pai e da mãe, na qual pais e mães reavaliam o tipo de relacionamento que tiveram com os seus próprios pais, à procura de um modelo. Actualmente, esta procura de modelos pode ser difícil, nomeadamente para o pai, na medida em que há um maior envolvimento paterno nos dias de hoje. É, porém, importante que ambos os pais consigam integrar todas as experiências positivas e negativas que tiveram enquanto filhos, aceitando os sucessos e também os fracassos dos seus pais. Isso permitirá que estes pais adoptem os comportamentos adequados dos seus pais, substituindo por outros aqueles que possam estar desajustados à sua situação e contexto, e permite ainda que possam aceitar as suas próprias falhas.
4. Reavaliar o relacionamento entre companheiros: O nascimento de um filho obriga a uma reestruturação importante na vida do casal. Os membros do casal, que até agora constituíam uma aliança romântica e conjugal, passam a partilhar uma nova realidade, o papel parental. Esta introdução de novos papéis e funções implica a sua integração num todo e a reestruturação deste todo que já existia. Esta reestruturação, nomeadamente emocional, implica que cada membro do casal esteja mais sensível às necessidades do outro e seja capaz de comunicar, partilhar e ajudar o outro a lidar com as novas experiências. Implica também a partilha e articulação das tarefas domésticas e a tomada de decisão aos vários níveis, como financeiro ou profissional. Forma-se uma nova aliança, que permite o crescimento de cada indivíduo e do casal, e também, no futuro, da criança que ambos ajudarão a crescer.
5. Aceitar o bebé como uma pessoa separada: Esta tarefa consiste em aceitar a separação do bebé, simbolizada principalmente pelo parto, reconhecendo, nomeadamente pela mãe, que o bebé existe separado desta, com características e necessidades próprias. Esta separação é, e desde a aceitação da gravidez, uma separação gradual, já que os filhos são inicialmente seres dependentes, pelo que os pais devem desenvolver a capacidade de proporcionar a independência, permitindo sempre momentos de dependência.
6. Integrar a identidade parental: Esta nova tarefa implica a avaliação das perdas e dos ganhos introduzidos pela parentalidade e a aceitação das mudanças provocadas por este novo estádio. A adaptação a esta tarefa depende largamente dos significados atribuídos a estas novas mudanças: Se alguns pais sentem uma grande descontinuidade com a identidade anterior, outros sentem que esta nova função de pai ou mãe foi aquilo com que sempre sonharam, pelo que a adaptação a esta nova fase irá depender da identidade prévia de cada pai.
7. Reavaliar e estruturar a relação com o(s) outro(s) filho(s): Quando o Pai e a Mãe já têm outros filhos, acresce ainda uma sétima tarefa, que se refere à reestruturação da relação com os outros filhos do casal. Nesta fase, é importante que os pais integrem o novo filho como mais uma pessoa separada, não o assimilando à identidade dos outros filhos (Canavarro, 2001). Estudos têm demonstrado que é neste momento em que se consolida a identidade paterna, pois o pai tem agora que prestar mais atenção ao filho mais velho enquanto a mãe se dedica à prestação de cuidados do bebé (Stewart, 1990).
Após o nascimento do bebé, novas exigências são colocadas aos pais e às mães do novo bebé, dando continuidade à resolução de algumas tarefas iniciadas durante o período de gravidez. Cowan e Cowan assumem que como momento de mudança, o nascimento de um filho não implica mudança apenas para os indivíduos mas para todo o sistema familiar, propondo a consideração de cinco domínios em que estas mudanças se manifestam (Cowan, Cowan, Heming & Miller, 1991; Cowan & Cowan, 1995, 2000):
1. As características psicológicas de cada membro da família, ou seja, de ambos os pais e do bebé, nomeadamente o sentindo de identidade, a sua perspectiva acerca do mundo e o bem-estar emocional. Neste domínio inclui-se por isso o auto-conceito, auto-estima, sintomas de depressão e perturbação emocional.
2. A relação conjugal, nomeadamente a divisão de tarefas e padrões de comunicação.
3. A qualidade da relação de cada pai e a criança.
4. Mudança nas relações da família nuclear com a família de origem, que pode assumir diferentes formas: se em algumas situações o nascimento de um filho promove uma reconciliação dos novos pais com os seus próprios pais, noutras situações pode fazer renascer antigas tensões familiares.
5. A relação entre o membros da família nuclear as instituições externas à família, nomeadamente o trabalho e escola. Apesar destas mudanças atingirem tanto os pais como as mães, estas são tradicionalmente as mais afectadas, nomeadamente porque, quando assumem o papel de principais prestadoras de cuidados, têm muitas vezes de abandonar, pelo menos temporariamente, o seu trabalho e muitas vezes diminuem os seus contactos sociais, podendo por isso estar a limitar as suas fontes de suporte social. Também os Pais muitas vezes apresentam mudanças a nível da vida profissional, mas no sentido oposto, ou seja, experienciam um aumento das horas de trabalho, frequentemente com o objectivo de promover um melhor suporte económico para a família, agora com um novo membro.
6. Relação entre cada um dos pais e o novo filho e entre o filho mais velho e o recém-nascido. Quando o nascimento não diz respeito ao primeiro filho, verifica-se a existência de mudanças, apesar de um pouco distintas, que implicam a reavaliação da relação dos progenitores com o filho mais velho e a relação do filho já existente com o recém-nascido. Também as tarefas da família se alteram em consequência do alargamento da família e das exigências que este alargamento coloca, sendo uma dessas tarefas mais importantes o equilíbrio entre a atenção dada a cada um dos filhos.
Ser pais, continuar a ser casal
A gravidez, e particularmente o nascimento de um filho implica mudanças muito relevantes na vida dos pais, o que obriga a redefinir papéis, tarefas e prioridades; é comum que a relação de ambos enquanto casal se possa ressentir, sobretudo nos primeiros tempos. A adaptação é um processo, e é necessário tempo para que novos equilíbrios possam ser encontrados, e para que esta importante fase do ciclo de vida possa ser desfrutada em todos os seus aspectos gratificantes.
Factores a considerar no ajustamento ao nascimento de um filho
Um bom ajustamento aos desafios colocados pelo nascimento de um filho é importante para a criação de boas condições para o seu desenvolvimento e também para o equilíbrio na vida do casal. As sugestões seguintes visam alertar os pais para algumas mudanças com que habitualmente os casais se confrontam na transição para a parentalidade.
1. Divisão das tarefas domésticas e da prestação de cuidados ao bebé
A divisão das tarefas é frequentemente um dos aspectos que causa mais dificuldades nos casais, conduzindo mesmo alguns conflitos.
Será importante discutir com o seu companheiro/a as suas expectativas sobre as tarefas e quem as poderá realizar, de modo a tentar encontrar consenso entre ambos.
2. Gestão financeira
O nascimento de um filho implica novos compromissos financeiros, podendo causar alguma perturbação aos casais. Os pais tendem a focalizar-se nesta preocupação mais que as mães, mas é importante que haja concordância em relação à forma de lidar com os novos gastos.
3. Relação conjugal
É de esperar que o nascimento de um filho traga mudanças na relação conjugal. O cansaço, a falta de tempo juntos e outros factores podem causar alguma perturbação na relação e será importante que os membros do casal se esforcem para encontrar tempo para estar com o outro e ir ao encontro das suas necessidades.
4. Vida profissional
O nascimento de um filho pode frequentemente colocar algumas dificuldades à plena realização do trabalho, principalmente no caso das Mães. pelas noites mal dormidas, pelas doenças do bebé, pela menor disponibilidade e envolvimento.
5. Actividades sociais e relação com os outros
Cuidar de um filho frequentemente parece ser incompatível com a actividade social e a manutenção das relações com os amigos. Muitas vezes a vida social muda intensamente, nomeadamente para as Mães, que podem por isso sentir-se mais isoladas em casa com os filhos. Será importante para os casais discutirem estas mudanças bem como tentarem aproveitar pequenas oportunidades para estarem com os seus amigos.
Principais exigências à adaptação materna na transição para a parentalidade
Privação de sono e cansaço
Mudanças no corpo
Dúvidas acerca da competência parental
Mudanças de humor
Insatisfação com a aparência física
Aumento das tarefas domésticas
Ansiedade acerca dos novos papeis e responsabilidades
Mudanças na situação profissional
|
Principais exigências à adaptação paterna na transição para a parentalidade
Constrangimentos financeiros e económicos
Privação de sono e cansaço
Aumento das tarefas domésticas
Intrusividade da família
Diminuição do interesse sexual da companheira
Falta de tempo para si próprio e para actividades sociais
Discordância no casal acerca dos papéis e tarefas de cada um
|
O que pode fazer para facilitar adaptação a esta nova fase do ciclo de vida?
-
Partilhe com o seu companheiro os seus medos e expectativas
-
Encontre sempre tempo para comunicar com o seu companheiro, e não deixe que as novas tarefas de prestação de cuidados ao seu bebé lhe roubem todo o seu tempo.
-
Não receie experimentar novas formas de relação. O nascimento de um bebé pode trazer tantas mudanças que as formas anteriores de funcionamento não se adequarem à nova organização familiar.
-
Não desvalorize a intimidade e o relacionamento sexual, apesar do cansaço que certamente sentirá. Aproveite os momentos de intimidade mesmo de carácter não sexual, como carinhos e abraços.
-
Organize a sua vida com a devida antecedência de modo a saber com quem pode contar quando for necessário algum apoio para cuidar do bebé.
-
Procure apoio de amigos ou familiares sempre que necessário.
-
É importante encontrar um equilíbrio entre a relação conjugal e a relação parental. Não deixe que o seu filho consuma todas as suas energias e continue a investir na relação com o seu companheiro.
Adaptado de:
Sean Brotherson, http://www.ag.ndsu.edu/pubs/yf/famsci/fs604w.htm